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Um Novo Rumo

Sebastião Buck Tocalino,
13 de fevereiro de 2013

Nos traçados abaixo podemos ver que a dívida privada (crédito) nos EUA tem uma relevante correlação com importantes indicadores econômicos. Por outro lado, a dívida pública do governo norte-americano tem um comportamento diferente, muito mais reativo do que causal.

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Um olhar rápido sobre essa relação entre dívida privada e demais indicadores econômicos e poderíamos cair na tentação de achar que o melhor é estimular novamente o crédito, permitindo a continuidade do consumo em grande escala e alavancagem. A questão é que a situação é insustentável. Por melhor que pareça a festa, não existe banquete ad infinitum e ninguém se banqueteia ad aeternum. E, no final, a conta sempre chega! Em algum momento, alguém terá de pagá-la de alguma forma. O futuro é hipotecado.

O gráfico abaixo mostra que apesar de o endividamento privado ter mostrado um recuo (desalavancagem) desde seu pico no auge da crise em 2008, quatro anos depois ele ainda se encontra acima do pico da crise da década de 1930. Mantendo-se o ritmo atual, a desalavancagem terá ainda um longo percurso pela frente. O premiado economista Steve Keen calcula que, se não alterado o ritmo, a dívida privada possivelmente só recuará ao nível de 75% do PIB norte-americano por volta de 2027.

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Especialmente preocupante é o fato de que tal nível de endividamento -sem precedentes- tenha ocorrido simultaneamente a uma ruptura também sem precedentes de padrões demográficos das populações de muitos países importantes. Segundo Jonathan Last, autor do livro "What to Expect When No One's Expecting" (numa tradução livre: O Que Esperar Quando Ninguém Está Esperando Bebês), 97% da população mundial está situada em países onde a taxa de fertilidade está recuando. O fenômeno é global. Se antes os demógrafos costumavam falar em termos de pirâmide populacional, a forma destas representações gráficas já pouco tem do aspecto piramidal de antigamente!

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A China já mostra uma grande redução nas faixas etárias abaixo dos 40 anos e, de forma ainda mais dramática, abaixo dos 20 anos.

A faixa entre 45 e 49 anos é de especial relevância, como um divisor de águas, uma vez que, segundo os dados do Bureau of Labor Statistics, estatisticamente o consumo dos indivíduos tende a crescer até essa faixa etária. Porém, acima desta idade, o consumo passa então a diminuir, favorecendo mais uma contração do que uma expansão econômica. (Leia mais sobre demografia e mercados)

O Japão, já nos anos 1990, foi a primeira grande economia a se ressentir com a redução do número de jovens consumidores (abaixo dos 48 anos). De fato, aquele seria o início de duas décadas perdidas para a economia japonesa, que até hoje tenta se recuperar.

A taxa de fertilidade média dentre as mulheres europeias, japonesas e chinesas, há tempos, já se encontra abaixo do nível de reposição da população. Nos EUA, a taxa de fertilidade procura resistir e não sucumbir a taxas inferiores à de reposição (entre 2 e 2,1 filhos por mulher), que determinariam uma contração da população jovem norte-americana e uma menor relação entre o número de consumidores progressivamente mais dinâmicos e economicamente ativos perante uma população mais madura e menos ativa, cuja postura se torna cada vez mais conservadora, tanto nos hábitos de consumo, como nos investimentos.

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E mesmo a imigração poderá não ser uma forma viável de compensação para a redução no número de jovens, uma vez que, a exemplo da América Central e da América do Sul, em outras economias menores ou emergentes as taxas de fertilidade vêm caindo de forma ainda mais rápida que nos EUA. Países com uma taxa de fertilidade abaixo da taxa de reposição da população deixam de gerar tão facilmente emigrantes para abastecer outros países.

Observe que a desaceleração na fertilidade da mulher brasileira foi mais brusca nos últimos 10 anos (base da figura abaixo) do que em qualquer período representado no gráfico dos EUA. A atual taxa de fertilidade por mulher brasileira é de 1,8 filhos, enquanto nos EUA, ela está em 1,93. Ambos os países seguem abaixo da taxa de reposição de suas populações, contudo, a situação recente no Brasil é mais alarmante para nosso futuro econômico.

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Se o Brasil ainda conta com um bônus demográfico favorável ao crescimento econômico, esse bônus já mostra seus limites e não estará aí para sempre. Em menos de 2 décadas a situação será diferente, estagnando-se o crescimento de consumidores com menos de 50 anos. E, dentro de 35 anos o cenário se inverterá, agravando-se com uma contração no número desses consumidores. Para que o Brasil possa aproveitar a janela ainda aberta desse bônus demográfico, seria conveniente atacarmos de forma pragmática e rápida os problemas institucionais e conjunturais que nos atrasam, como as sérias deficiências na educação, desde o nível básico até o profissionalizante, a corrupção e o corporativismo político, o confuso e pesado sistema tributário, a legislação trabalhista que favorece mais o comodismo do empregado do que a valorização do trabalhador, o moroso e consequentemente ineficiente sistema judiciário, e a implementação de uma infraestrutura bem planejada para escoar nossa produção agropecuária e industrial, assim como o abastecimento de energia, água potável e escoamento e tratamento adequado do lixo e do esgoto.

A saúde merece maior atenção, bem como o aumento da idade para a aposentadoria e flexibilização das horas de trabalho, em períodos mais curtos, que viabilizem a inclusão de trabalhadores da terceira idade. Será preciso fomentar uma participação mais ativa e longa da população no mercado de trabalho, aliviando assim a sobrecarga que pesará sobre os trabalhadores mais jovens, e aproveitando a maior experiência acumulada por esses trabalhadores maduros que ainda podem contribuir muito para a economia, para o bem estar social e para seu próprio bem estar e autoestima. No censo realizado em 2000, os idosos eram 8% da população total. Em 2010 eles avançaram para 12% - e continuam crescendo! Nossa legislação trabalhista e previdenciária persiste antiquada e já fora de contexto. O contraste entre os cenários passados e o futuro é flagrante e tem que ser abordado com políticas condizentes.

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Da mesma maneira que a fase de alto consumo associado ao endividamento e à alavancagem financeira não pode durar para sempre, o crescimento populacional também deve ceder. Uma hora a coisa muda - e tem que mudar mesmo! Essa mudança é salutar para o planeta e para os recursos naturais: tanto no aspecto biológico, como geológico! Ademais, seria bastante pior a continuidade no ritmo do endividamento diante de uma mudança na razão entre indivíduos economicamente ativos e aqueles mais maduros e mais perto de se aposentarem. A conta se elevaria ainda mais e teria de ser rateada entre uma menor fração de pessoas ativas.

Como no exemplo do Japão, as populações mais jovens vão se tornar menos numerosas, enquanto as populações mais maduras aumentarão por vários anos ainda e com tendência a alcançarem uma idade mais avançada do que em outros tempos. Existe aqui uma questão ética para com nossos filhos e gerações futuras, cuja dimensão não vem sendo encarada com a necessária seriedade e atenção. As atuais políticas de combate à crise vêm sendo orientadas por muitos e diferentes governos muito mais na preocupação de reestimular o crédito/consumo e ressuscitar um cenário já defunto, do que pela compreensão de que um novo contexto e outros fundamentos macroeconômicos globais estão emergindo. Seria importante fazer-se uma reavaliação do momento econômico e social, para a formulação de políticas diferentes e toda uma nova estratégia de investimentos em infraestruturas e instituições que dinamizem o novo panorama que vem se definindo.

É comum acreditarmos que um caminho, embora apresentando desvios sinuosos, acabe seguindo para o mesmo destino. Contudo, eventualmente surgem curvas que não são meros desvios, mas sim o começo de um novo rumo que custará a ser percebido como tal. Quanto mais cedo for reconhecida a mudança no rumo, melhor será a adaptação às realidades que nos esperam e às expectativas que nos guiarão.

Uma realidade diferente, não significa uma perspectiva necessariamente pior, mas para que novas oportunidades sejam aproveitadas da melhor forma e mais rapidamente, será necessário não insistirmos naquilo que era mais cabível dentro do contexto anterior. O pessimismo jamais levou alguém a avanço algum, mas um otimismo ingênuo ou teimoso, baseado numa realidade ultrapassada, pode custar caro e atrasar a conquista de novos progressos. Será difícil fazer essa curva para um novo rumo. O primeiro passo é reconhecer que estamos diante de importantes fatores, determinantes de mudanças seculares, e que teremos de começar a agir de forma diferente. Os desafios, com certeza, criarão grandes oportunidades se encarados e vencidos - mas se ignorados, o retrocesso será certo e penoso.

 

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